quinta-feira, 19 de abril de 2012

Intervenção do Camarada Joaquim Goulart, Secretário Político do Comitê Municipal do PCB de Sabará por ocasião dos 90 anos do PCB, durante homenagem que a Câmara Municipal sabarense prestou ao Partido


No Brasil, diferente da Europa, que assistiu a organização de partidos operários ao longo do século XIX com designação social-democracia, a formação do Partido Comunista Brasileiro (PCB) vinculou-se diretamente ao sucesso da Revolução de Outubro de 1917 na Rússia. A maior presença de operários originários do movimento anarquista expressou essa realidade específica do Brasil.

Em 1922 quanto foi fundado o Partido comunista Brasileiro (PCB), o Brasil tinha pouco mais de 30 milhões de habitantes, e a maioria morava do campo.

Vivia-se então, o capitalismo agrário-exportador e a economia dependia principalmente da exportação de produtos primários, sobretudo o café.

Desde fins do século XIX, alterou-se a organização do espaço no eixo Rio – São Paulo, devido à intensificação do processo urbano – industrial.

Nesse contexto crescia a classe operária, para isso contribuindo a multiplicação de pequenas indústrias. Igualmente foi importante a chegada de imigrantes, na sua maioria da Itália, da Espanha e de Portugal.

Eles despertaram o movimento dos trabalhadores. Organizaram sindicatos. Editaram jornais. Distribuíram panfletos e manifestos. Animaram congressos e manifestações. Lideraram greves. Montaram peças de teatro com conteúdo político.

Mas, eles eram na sua maioria anarquista. E o Anarquismo coloca em primeiro plano a liberdade do indivíduo. Seu lema é “todo para o indivíduo”. Mas a luta dos operários era uma luta de classes, era uma luta pela emancipação das massas e dos trabalhadores, e só através desta libertação viria então a emancipação do indivíduo.

Por que então fundar o Partido Comunista nos moldes de marxismo-leninismo?

A conjuntura da década de 1920 marcou a crise da República Oligárquica no Brasil. Eram visíveis os sinais das contradições na sociedade agrário-exportadora. Claras manifestações de descontentamento de classes marginalizadas do poder tornaram-se freqüentes.

O crescimento e o amadurecimento do proletariado urbano refletiam a gravidade de uma questão social que as elites procuravam conter. Apesar da violenta repressão das autoridades, o movimento grevista foi impulsionado entre 1916 e 1920, culminando com a greve geral de 1917 no Estado de São Paulo e a tentativa de insurreição, no Rio de Janeiro, em novembro de 1918.

O governo usava a Lei de Expulsão de Estrangeiros visando banir os líderes anarquistas grevistas. As prisões se sucediam. Inúmeros operários foram mortos.

Apesar disso, o proletariado ganhou vida nova com a notícia da Revolução Russa de 1917. Seu impacto injetou esperança no operariado brasileiro, além de influenciar segmentos das classes médias. Entre 1918 e 1921, foram criados muitos grupos, ligas e até partidos comunistas no Brasil. Para muitos trabalhadores e intelectuais pareciam mais corretas as idéias do marxismo-leninismo do que as defendidas pelos anarquistas.

Foram criadas no Rio Grande do Sul, a Liga Comunista de Livramento, a União Maximalista em Porto Alegre que se tornou Grupo Comunista de Porto Alegre.

Em 1919 no Rio, liderados por José Oiticica organizaram o Partido Comunista Anarquista, criaram o jornal SPARTACUS, dirigido por Astrogildo Pereira.

Também 1919, em São Paulo, anarquistas transformaram a Liga Comunista em Partido Comunista do Brasil.

Não se pode esquecer a influência exercida pela III Internacional Comunista em 1919. Foi ela centro propulsor e estimulante da criação de partidos comunistas em todos os países.

Estavam dadas as condições para a criação de um partido comunista nos moldes do marxismo-leninismo.

Em novembro de 1921, quando se comemorava o quarto aniversário da Revolução Russa, o Grupo Comunista aprovou a convocação do I Congresso do PCB que seria formalizada mais tarde, em 25 e 26 de Março de 1922. Eles eram apenas um reduzido grupo de militantes. Não mais de setenta em todo Brasil. Sabiam pouco de marxismo, mas tinham sede de justiça e estavam dispostos a lutar por ela.

Eles eram apenas nove delegados, intelectuais, alfaiates, impressor, vassoreiro, eletricista, barbeiro, e pedreiro. E nem puderam cantar muito alto a internacional naquela casa de Niterói em 1922. Mas Astrogildo, Cristiano, Joaquim, Manoel, João, Luiz, Hermogênio, Abílio e Jose que citava Lênin a três por dois, cantaram e fundaram o partido,. O canto deles, apesar de baixo, ecoa por todo o Brasil desde Março1922, e ecoará sempre enquanto houver miséria e injustiça.

O PCB não se tornou o maior Partido do Ocidente. Nem mesmo do Brasil. As ditaduras ferrenhas e sanguinárias o desfiguraram, eliminando e desaparecendo com grande parte de seus dirigentes, amedrontando e torturando militantes e seus familiares, fazendo todo o possível para eliminá-lo, Mas não o conseguiram, apenas o fortaleceram. O ideário comunista, concebido no Materialismo Histórico, na Economia Política e no Comunismo Científico fundado por Marx, Engels e complementado por Lênin falou mais alto. Nossa confiança numa sociedade justa, “e digo justa, e não mais justa”, e igualitária jamais foi, ou será abalada, pois nos fomos, somos e seremos sempre comunistas. Mas, camaradas e convidados, quem contar a história de nosso povo e seus heróis. Tem que falar dele. Tem de falar do nosso partidão. Tem de falar do PCB.

Ou então estarão mentindo.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

VIDEO: SABARÁ COMEMORA OS 90 ANOS DO PCB COM SESSÃO SOLENE NA CÂMARA MUNICIPAL



EX-VEREADOR DO PCB, CASSADO EM 1964, JOSÉ FRANCISCO NERES, É REEMPOSSADO SIMBOLICAMENTE, JUNTO COM SEU COMPANHEIRO TAMBÉM DO PCB À ÉPOCA, JOÃO SOTERO

Ato em homenagem aos 90 anos do PCB em Sabará. Emoção a toda prova. O presidente da Câmara Municipal, Maurílio Barbosa da Silva e a vereadora Terezinha Berenice de S. van Stralen, fizeram a chamada e, simbolicamente, reempossaram o líder sindical José Francisco Neres, secretário político do PCB de Belo Horizonte em sua cadeira de vereador, 48 anos depois de ter sido cassado pelo golpe cívico-militar de 1964. O plenário aplaudiu de pé e logo após, o dirigente do PCB tocou a Internacional , com a audiência acompanhando a letra de Eugène Pottier, de 1871 ( a música é de Pierre Degeyter, de 1888) no telão. Muita gente deixou o auditório em lágrimas, tamanho a beleza e o significado da solenidade. Representantes do PCB, como Fábio Bezerra ( do Comitê Central) e Túlio Lopes ( do Comitê Estadual) falaram durante o ato, bem como o secretário político do PCB em Sabará, Joaquim Goulart, representantes do PSOL e do PT, além de líderes comunitários e sindicais locais também falaram. Outros oradores foram a representante do Coletivo Ana Montenegro, Maria Angélica, o representante da Associação Cultural José Martí, Magela Medeiros, o representante da Unidade Sindical, Patrick Osório, bem como o Luís Fernando, membro da Juventude Comunista e do PCB de Sabará e ainda o professor Pablo Lima. Entre os presentes estava o membro do Comitê Estadual do PCB e possível candidato do partido a vice-prefeito Antonio Almeida, o Almeidão, também membro do Comitê Central do PCB. O discurso do ex-vereador José Francisco Neres foi bastante emocionante, relatando como chegou à Câmara, "graças ao trabalho de base", principalmente entre os tecelões de Marzagão, lá em Sabará, junto com seu companheiro comunista João Sotero, outro reempossado simbolicamente na sexta-feira última, ao final do ato solene em homenagem aos 90 anos do Partido Comunista Brasileiro. Uma placa em homenagem aos mais de 50 anos de ação do sindicalista José Francisco Neres em favor dos trabalhadores, sempre militando no PCB, foi entregue pelo membro da Juventude Comunista e representante da Unidade Classista, Patrick Osório, em nome do PCB, Comitê Municipal de Sabará. Acompanhe neste mesmo espaço mais notícias das homenagens aos 90 anos do Partidão

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

90 ANOS DO PCB

AOS MILITANTES, AMIGOS E SIMPATIZANTES DO PCB

Em 25 de março de 2012, o PCB estará  comemorando 90 anos de uma extraordinária história, de alegrias e tristezas.
Em função de vários períodos de clandestinidade, da repressão de ditaduras e da ação de oportunistas, dispomos em nossos arquivos de poucos documentos (livros, fotografias, áudios, vídeos, objetos e outros registros políticos, históricos e literários) que retratem a intensa vida do PCB nestes 90 anos.
Carecemos também de depoimentos escritos ou gravados, com narrativas sobre aspectos diversos da vida partidária, curiosidades, histórias inéditas, alegres ou tristes.
O Secretariado Nacional do PCB está encarregado de centralizar a recepção de todo este material espalhado pelo país. O material pode ser enviado ao PCB pessoalmente, por via postal ou eletrônica.
Com a tecnologia hoje disponível, você não precisa se desfazer do seu acervo pessoal, que certamente tanto lhe orgulha. Fotos e documentos podem ser escaneados e enviados por via eletrônica. Se o doador não tiver conhecimentos tecnológicos ou recursos materiais para a reprodução e remessa de sua contribuição, providenciaremos formas de ajudá-lo, inclusive com a interação de camaradas do PCB em sua região.
Todo este material será divulgado nos sítios eletrônicos do PCB e da Fundação Dinarco Reis, ligada ao Partido. Muitas das doações serão aproveitadas para publicações e outras iniciativas comemorativas dos 90 anos. Os doadores só serão identificados, se desejarem.
REPRODUZA POR TODOS OS MEIOS POSSÍVEIS ESTA CIRCULAR.
POR TODOS OS RINCÕES DO BRASIL HÁ  MILHARES DE COMUNISTAS, AMIGOS E FAMILIARES DE MILITANTES DO PCB QUE PODEM NOS AJUDAR.
VEJAM AS FORMAS DE ENTREGA DO MATERIAL:
Por via postal:
- PCB – Partido Comunista Brasileiro
Rua da Lapa, 180 – grupo 801 – Lapa (Rio de Janeiro) – CEP 20021-180.
Por telefone:
- PCB: 021-2262-0855 (secretária eletrônica)
Por via eletrônica:
pcb@pcb.org.br Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo.
Secretariado Nacional do PCB, janeiro de 2012

domingo, 22 de janeiro de 2012

Lênin: necessário em 1917, 1924 e 2012

Uma vida dedicada à Revolução

Obra e exemplo de líder revolucionário falecido em 21 de janeiro de 1924 continuam atuais
Em 1898, o então maior nome do movimento operário russo, Georgi Plekhanov, lançava um documento levantando uma questão incômoda para todos aqueles que se desprendem de vaidades pessoais para organizar, coletivamente, a transformação radical da sociedade. Seu livro se chamava O papel do indivíduo na História. Ironias dessa mesma História, foi também naquele ano que Plekhanov conheceu um jovem de 28 anos chamado Vladimir, recém-casado com sua Nadja e que poucos meses depois iria publicar seu seminal O desenvolvimento do capitalismo na Rússia. É imperioso afirmar, e nem o mais reacionários dos burgueses nega, o colossal papel de Vladimir, codinome Lênin, na história dos revolucionários, da política, da humanidade.
O falecimento de Vladimir Ilyitch Ulianov completa 88 anos neste 21 de janeiro de 2012. Em apenas 53 anos de vida - ele nasceu em 22 de abril de 1870 - Lênin foi muito mais que um estudioso das relações sociais e econômicas do capitalismo, o propagandista e agitador revolucionário, o organizador do Partido e da Internacional comunistas. Foi também um ferrenho opositor do reformismo e do economicismo, dedicado a desmascarar os oportunistas de direita e de esquerda no movimento operário, um líder afeito ao bom e produtivo debate.
A vida pessoal e os gostos de Volodia - seu apelido familiar -, como a pretensa falta de hobbies para além do xadrez e da leitura de Alexander Pushkin, Ivan Turgenev, Leo Tolstoy e Nikolay Nekrasov, e sua exígua estadia pela advocacia, são apenas notas de rodapé na biografia de um dos pilares da Revolução Russa de 1917, líder do Partido Comunista e primeiro presidente do Conselho dos Comissários do Povo de uma recém-criada União Soviética. Digno de registro, que ajuda a explicar sua trajetória, apenas o enforcamento de seu irmão mais velho - por conspiração em um atentado terrorista contra o Tzar Alexander III.
Quase que ao mesmo tempo da morte do irmão, Alexandre Ulianov, toma conhecimento das obras de Plekhanov. Em 1887, com 17 anos, lê as obras de Karl Marx e Friedrich Engels e estabelece contato com outros revolucionários. É preso numa manifestação e, em 1892, traduz o Manifesto do Partido Comunista para o russo.
Em 1893, muda-se para São Petersburgo, onde, dois anos mais tarde, irá fundar a Liga da Luta pela Emancipação da Classe Operária. Em dezembro de 1895, é preso por conspirar contra Alexandre III. Após 14 meses de prisão, é exilado para a Sibéria em fevereiro de 1897.
No final de seu exílio, deixa a Rússia para viver em Munique (1900-1902). Lá, ao lado de Martov, funda o jornal Iskra, publicação do Partido Operário Social-Democrata Russo (POSDR). Precisa mudar-se novamente de país e, em Londres (1902-1903), participa do 2º Congresso do POSDR. É nesse congresso que vai liderar a ala bolchevique ("maioria" em russo) contra os mencheviques ("minoria"), ruptura que originará o livro Que Fazer?.
Após estadia em Genebra (1903-1905), Lênin retorna à Rússia para participar da Revolução de 1905. Em 1906, é eleito presidente do POSDR, mas precisa novamente se exilar após a carnificina czarista promovida contra a tentativa de revolução. Só voltaria para seu país em 1917.
Durante este hiato, publica Materialismo e Empiriocriticismo (1909), crítica a uma variante de idealismo, ataca o reformismo da II Internacional e se opõe à participação dos trabalhadores e camponeses na I Guerra Mundial. Escreve Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo. Lênin identifica, na Primeira Guerra Mundial, a expressão da disputa acirrada entre os interesses imperialistas, refletindo a necessidade de expansão mundial do capital. Por isso, definia a guerra imperialista como uma ação totalmente reacionária, contra a qual era preciso se posicionar firmemente, do ponto de vista do internacionalismo proletário e da revolução.
A análise de Lênin sobre a dinâmica histórica do capitalismo também lhe permitiu apontar o caráter da revolução na Rússia, armando os bolcheviques para o enfrentamento às concepções mecanicistas e capitulacionistas dos mencheviques. Quando estes tentaram minimizar a importância da onda revolucionária com o pretexto de que “a Rússia não estava bastante desenvolvida para o socialismo”, Lênin e os bolcheviques afirmaram que o caráter mundial da guerra imperialista mostrava que o capitalismo mundial havia alcançado o nível de amadurecimento necessário para a revolução socialista.
1917, um capítulo à parte
Em fevereiro de 1917, manifestações populares na Rússia forçam a saída do czar Nicolau II e os mencheviques assumem o poder. Determinado a voltar à Rússia, Lênin conta com o apoio do comunista suíço Fritz Platten para obter permissão do ministro alemão das Relações Exteriores de viajar através da Alemanha para sua terra natal.
Em 16 de abril (3 de abril no calendário gregoriano), chega à Estação Finlândia, em São Petesburgo. Suas Teses de Abril acabavam de sair do forno: nelas, defendia abertamente que os bolcheviques organizassem uma revolução socialista e dessem o poder aos sovietes. Poucos meses depois, suas propostas se mostrariam acertadas.
Concluída a revolução socialista em outubro de 1917, lidera o governo bolchevique no enfrentamento à guerra civil incensada pelas forças conservadoras, com apoio do imperialismo, até 1921, vencida pelo proletariado russo. Comanda a instauração da NEP (Nova Política Econômica) e escreve Esquerdismo, doença infantil do comunismo. Vários acidentes vasculares cerebrais o prejudicam, fazendo com que venha a falecer em 21 de janeiro de 1924.
A teoria a serviço da revolução
A biografia de Lênin está umbilicalmente ligada à luta política contra o reformismo no interior do movimento socialista mundial. Em resposta ao desenvolvimento do oportunismo na Segunda Internacional, grupos comunistas em vários países passaram a resgatar os princípios revolucionários do legado de Marx e Engels, para fazer contraponto à social-democracia. Essas correntes apareceram quando a expansão imperialista fazia vislumbrar a perspectiva de um conflito armado entre as grandes potências do capitalismo e, em paralelo, se acirrava a luta de classes (com a deflagração de greves gerais políticas e, sobretudo, de greves de massas nos países capitalistas).
Contra o oportunismo de Bernstein e outros revisionistas, os bolcheviques, o grupo dos tribunistas holandeses, Rosa Luxemburgo e vários revolucionários aprofundaram a análise marxista para entender a dinâmica das crises cíclicas do capitalismo (como fez Lênin em Imperialismo, fase superior do capitalismoe Rosa Luxemburgo em A Acumulação do Capital), as causas das posturas oportunistas (Rosa Luxemburgo em Reforma ou revolução e, mais tarde, Lênin em A Revolução Proletária e o Renegado Kautsky) e reafirmaram a necessidade da destruição violenta e definitiva do capitalismo (Lênin em O Estado e a Revolução e Rosa Luxemburgo em Que quer a Liga Spartacus?).
Em Que Fazer?, publicado em 1902, Lênin já havia assinalado, de forma categórica, a opção pelo caminho revolucionário contra a perspectiva da colaboração de classe, disseminada pela social-democracia. Uma das principais teses da obra é a de que “sem teoria revolucionária, não pode haver prática revolucionária”. Citando Marx na famosa carta sobre o programa de Gotha, Lênin lembra que o fundador do materialismo histórico dizia ser inaceitável qualquer tipo de concessão teórica e de barganha com os princípios revolucionários.
O estímulo ao estudo e a difusão da teoria marxista são tarefas prioritárias do Partido, pois, segundo outra ideia presente em Que Fazer?, “a consciência socialista não brota espontaneamente das lutas do proletariado”. Atacando o que denominou de “culto à espontaneidade”, destacou a necessidade do Partido de vanguarda e dos militantes profissionais, ou seja, da organização revolucionária, para orientar as massas no sentido da mobilização e da ação consequente contra o regime do Czar e a ordem capitalista. O Partido, então, deve “ir a todas as classes da população”, assumindo o papel de propagandista, agitador e organizador da luta proletária, assim como de educador, a expor a todos os trabalhadores e demais camadas populares os objetivos gerais do programa socialista.
Criticando os métodos artesanais, a improvisação e a desorganização que grassavam entre os oposicionistas russos, sobre quem dizia que “partiam para a guerra como autênticos mujiques, armados apenas de um bordão”, defendeu que a organização revolucionária deve ser diferente da organização sindical, esta centralmente voltada para a luta econômica contra os patrões. Entendendo que a luta política é muito mais ampla e complexa que as batalhas sindicais, a organização dos revolucionários deve englobar “homens cuja profissão é a ação revolucionária”, pois não seria possível combater a ditadura czarista e, muito menos, avançar na luta pela derrubada do capitalismo, sem que alguns homens e mulheres se dedicassem exclusivamente a esta tarefa.
Para cumprir tais objetivos, levando-se em conta as condições políticas na Rússia dos primeiros anos do século XX, se fazia necessário um alto grau de centralização organizativa, com o cuidado de que a especialização do trabalho revolucionário e a clandestinidade não levassem ao descolamento das massas, nem se mostrassem incompatíveis com os princípios democráticos. Por fim, Lênin postula que, no Partido revolucionário, deve desaparecer por completo toda distinção entre operários e intelectuais.
Outra obra essencial é O Estado e a Revolução, escrita em agosto e setembro de 1917, às vésperas, portanto, da revolução bolchevique. Lênin sistematiza as ideias de Marx e Engels sobre o Estado capitalista e a ditadura do proletariado, buscando atualizar a sua aplicação na luta política em tempos de capitalismo monopolista e de imperialismo, ou seja, segundo seus prognósticos à época, de preparação para a revolução socialista mundial. Reforçando que o princípio democrático é um princípio proletário, Lênin reafirma, fundamentalmente, o caráter de classe do Estado, desmistificando o pensamento burguês segundo o qual a democracia política é inerente à ordem fundada pelos liberais. Na verdade, a consolidação do capitalismo monopolista e do imperialismo representou um retrocesso nas práticas democráticas conquistadas em vários países graças às intensas lutas operárias travadas ao longo do século XIX. Ao caracterizar o Estado como instrumento a serviço do grande capital, o líder bolchevique projetava a tendência, hoje cada vez mais evidente, da total incompatibilidade entre a ordem capitalista e a democracia.
A Internacional Comunista
Após a Revolução de Outubro de 1917, o movimento socialista internacional viu-se envolvido na crença de que a ruptura histórica com o capitalismo era iminente e de que uma nova onda revolucionária iria varrer o mundo, estabelecendo rapidamente, na Europa e no ocidente, uma nova sociedade dirigida pelos operários. Daí que, em março de 1919, realizou-se, em Moscou, a convite dos bolcheviques, o Congresso de fundação da III Associação Internacional dos Trabalhadores, também chamada de Internacional Comunista (IC) ou Komintern, constituída por representantes de numerosos pequenos grupos revolucionários europeus, aqueles que em seus países haviam rompido com a social-democracia, dando início à formação dos partidos comunistas. Definia-se a luta pela afirmação da ditadura do proletariado no lugar da democracia burguesa como um dos princípios fundamentais da entidade, na perspectiva de criação de uma “União Mundial das Repúblicas Socialistas Soviéticas”. Mas o contexto internacional era de refluxo do movimento operário e socialista e de derrota de lutas populares e tentativas revolucionárias na Alemanha, na Áustria, na França, na Hungria, na Itália.
No segundo congresso, reunido em 1920, foram aprovadas as Teses sobre a questão nacional e colonial, redigidas por Lênin, que inseria as lutas nacionais na sua teoria do imperialismo, propondo a união do movimento anti-imperialista, formado pelo conjunto de movimentos de libertação nacional e colonial, aos objetivos estratégicos da revolução mundial, sob a liderança dos bolcheviques da Rússia Soviética, num momento em que esta se via cercada pelos ataques dos países imperialistas durante o período conhecido como “comunismo de guerra”.
Lênin combateu, neste Congresso, a argumentação segundo a qual apoiar movimentos coloniais de caráter democrático-burguês favoreceria a afirmação de um espírito nacionalista que impediria o despertar da consciência de classe nas massas exploradas. Em contrapartida, defendeu o conceito de “nacionalismo revolucionário”, descartando a visão linear das fases obrigatórias no processo revolucionário, a prever uma etapa democrático-burguesa, o que parecia indicar a insistência, por parte de certos dirigentes comunistas, em criar um modelo de transformação social copiado da história europeia. Para Lênin, os movimentos nacionais tinham validade revolucionária se fossem protagonistas de um processo de transição para a revolução socialista, não sendo aceita como inevitável a realização da etapa burguesa, pois dizia: “os países atrasados, com a ajuda do proletariado dos países avançados, podem passar ao regime soviético e, através de determinadas etapas de desenvolvimento, ao comunismo, evitando o estágio capitalista de desenvolvimento”.
Na concepção de Lênin, quando se falava em movimento democrático-burguês ou revolucionário-nacional, tinha-se em mente a percepção de que a massa principal da população a ser atraída para a luta revolucionária nos países dominados pelo imperialismo seria composta pelo campesinato. O apoio dos comunistas ao movimento democrático-burguês traduzia-se na luta contra a exploração imperialista lado a lado com os camponeses, representantes da pequena burguesia rural, cujos objetivos políticos eram vistos como potencialmente progressistas e conflitantes com os interesses da burguesia industrial e financeira, já comprometida com o imperialismo. Numa realidade em que o proletariado ainda não se organizara de forma a se tornar a principal força hegemônica na revolução, a aliança com o campesinato aparecia como a melhor tática para a luta anti-imperialista e a conquista de um poder alternativo ao exercido pelos grupos capitalistas.
A essência desse pensamento pode ser revisitada no clássico Duas Táticas da Social-Democracia na Revolução Democrática, escrito por Lênin no ano de 1905, como contribuição para o aprofundamento da luta revolucionária na Rússia. A revolução democrático-burguesa era vista como inevitável e, mesmo, necessária, naquela conjuntura específica de um país de economia agrária com sobrevivências de relações feudais, para varrer os restos do regime de servidão e da superestrutura aristocrática, incluindo a própria monarquia czarista, e garantir o pleno desenvolvimento das relações capitalistas. Daí que, segundo Lênin, a revolução democrática, burguesa por seu conteúdo econômico e social, também fosse do interesse da classe operária e dos camponeses, por sua capacidade de proporcionar mudanças que estabelecessem novas formas de organização social e política, permitindo maior fôlego à organização e à luta do proletariado em prol de sua total libertação.
Mas não era admissível, para o líder comunista russo, que o proletariado ficasse à margem da revolução burguesa, tampouco que entregasse a sua direção à burguesia, mas, pelo contrário, era preciso lutar para ampliar os limites democrático-burgueses da revolução no sentido da satisfação das necessidades e dos interesses do proletariado, preparando o caminho de sua vitória completa, a sociedade socialista. Como a burguesia e a pequena burguesia russas não haviam ainda formado um grande partido popular, caberia aos bolcheviques dirigir o processo, liderando não só o proletariado, mas também aqueles grupos e elementos sociais capazes de marchar ao seu lado, visando à conquista da democracia revolucionária.
No III Congresso da IC, realizado em 1921, com base em seu texto Esquerdismo, doença infantil do comunismo, Lênin passa a reconhecer que a onda revolucionária havia regredido, centralmente na Europa, daí a necessidade de um trabalho dos comunistas no interior dos sindicatos dominados por direções reacionárias, além da participação nas eleições instituídas pelo calendário político democrático-burguês, tendo em vista a conquista de cadeiras, pelo movimento operário, nos parlamentos dos países capitalistas. Lênin percebe que os partidos comunistas fora da Rússia Soviética tinham pequena inserção junto às massas e insistiam em adotar táticas revolucionárias calcadas na experiência dos bolcheviques, as quais não demonstravam ser adequadas à realidade social, econômica e política do ocidente capitalista. Pois não eram as mesmas as condições que favoreceram, na Rússia, o desenvolvimento do processo revolucionário. Era preciso “trabalhar obrigatoriamente onde está a massa”.
Lembrava Lênin que os bolcheviques necessitaram de quinze anos para se preparar como uma força política organizada para a conquista do poder na Rússia, afirmando que a vitória sobre a burguesia seria impossível sem uma “guerra prolongada, tenaz, desesperada, de vida ou de morte; uma guerra que exige tenacidade, disciplina, firmeza, inflexibilidade e unidade de vontade”. Afinal, tratava-se de enfrentar um poder que não residia apenas na força do capital e na solidez das suas relações internacionais, mas igualmente na “força do costume, na força da pequena produção”. O dirigente bolchevique indicava a necessidade de uma revolução que fosse também capaz de promover transformações de ordem moral e cultural para vencer a ideologia do capitalismo.
Era preciso saber respeitar e reconhecer, através de muito estudo e acurada investigação das realidades nacionais, as especificidades existentes na economia, na política e na cultura de cada país, que forçosamente exigiriam formas particulares de luta, capazes de adaptar os princípios fundamentais do comunismo às características próprias de cada nação. Para tal, não bastaria a ação isolada da vanguarda, nem um trabalho voltado apenas à agitação e à propaganda, pois somente através da própria experiência política das massas seria possível desenvolver formas de abordagem da revolução proletária, ou seja, táticas de luta eficazes na mobilização popular e no enfrentamento às classes dominantes. Tendo afirmado que os revolucionários deveriam saber combinar modos diferenciados de embate político, Lênin deixava claro não haver um modelo único ou uma receita para a vitória da revolução, destacando ser necessário que “todos os comunistas de todos os países tenham consciência em toda a parte e até o fim da necessidade da máxima flexibilidade na sua tática”.
Flexibilidade na tática, mas não princípios, tampouco na estratégia. A radicalidade do pensamento de Lênin provocou a reação virulenta da burguesia e da social-democracia, que demonizaram o líder bolchevique e tudo o que ele representa. Em contrapartida, para os revolucionários e trabalhadores conscientes da necessidade de destruir a ordem capitalista e construir o socialismo, há a certeza de que seu legado político mantém-se como um guia indispensável para a ação transformadora. As ideias de Lênin e a Revolução Russa de 1917 marcaram a ferro e fogo todo o século XX. Além de retomar o impulso revolucionário de Marx, com Lênin o socialismo deixava de ser uma doutrina exclusivamente europeia para ganhar o mundo, superando seu eurocentrismo inicial. Os trabalhadores e povos explorados em todo o planeta continuam encontrando no marxismo revolucionário de Lênin o indicativo preciso da união da teoria com a prática, para a organização das lutas de resistência e enfrentamento aos imperativos do capital, com vistas à construção da alternativa socialista, no rumo do comunismo.
VIVA LÊNIN! VIVA A REVOLUÇÃO SOCIALISTA!
O Portal do PCB, em sua seção de Formação, oferece parte da produção intelectual de Lênin, nos seguintes livros:
  • As Teses de Abril
  • As Três Fontes e as Três Partes Constitutivas do Marxismo
  • Capitalismo e Agricultura nos Estados Unidos da América
  • Duas Táticas da Social-Democracia na Revolução Democrática
  • Esquerdismo, Doença Infantil do Comunismo
  • O Estado e a Revolução
  • O Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo
  • Que Fazer?
  • Sobre a Dualidade de Poderes
  • Um Passo a Frente, Dois Atrás
Para fazer o download dessas obras, basta ir ao seguinte link:
http://www.blogger.com/portal/index.php?option=com_content&view=article&id=1817

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

PCB ENTREGA MEDALHA DINARCO REIS, EM MEMÓRIA, A CARLOS MARIGHELLA

Em expressivo ato público ocorrido na semana passada, na Associação Brasileira de Imprensa (ABI), Rio de Janeiro, convocado por várias entidades, o secretário-geral do PCB, Ivan Pinheiro, prestou homenagem a dois grandes militantes comunistas: Dinarco Reis e Carlos Marighella.



O evento se deu em comemoração do centenário de Carlos Marighella e tinha como chamada uma frase emblemática deste grande militante comunista: NÃO TIVE TEMPO DE TER MEDO. Em nome das entidades que compunham a mesa, presidida por consenso por Luiz Rodolfo Viveiros de Castro (Gaiola), usaram da palavra Mauricio Azedo (Presidente da ABI), Wadih Damous (Presidente da OAB-RJ), Cecília Coimbra (Tortura Nunca Mais), Amanda (Direção Nacional do MST) e ex-militantes da ALN. Os deputados estaduais Paulo Ramos e Geraldo Moreira anunciaram a concessão da Medalha Tiradentes a Marighella, por parte da Assembléia Legislativa do RJ.

Ivan Pinheiro explicou aos presentes que a Medalha Dinarco Reis é concedida anualmente pelo PCB a camaradas que orgulham a história do PCB, mesmo que tenham saído do Partido por divergências, desde que mantendo a ideologia comunista e o respeito pelo Partido. Dinarco Reis, o “Tenente Vermelho”, foi dirigente do PCB durante décadas; é herói da Revolta Comunista de 1935 e voluntário da Guerra Civil Espanhola e da Resistência Francesa.

O dirigente do PCB deixou claro também que não se tratava ali de o Partido querer se apropriar da memória de Marighella, que pertence aos revolucionários e ao povo brasileiros, e tampouco de debater dissidências do PCB após o golpe militar, que eram mais sobre formas de luta do que de conteúdo estratégico.

Uma delas, criada por Marighella, chamou-se Ação Libertadora Nacional. Como o PCB, a ALN defendia a idéia, que já vinha sendo criticada por Caio Prado Jr. e outros comunistas, de uma etapa nacional, democrática e libertadora, antes da etapa socialista da revolução brasileira.

Ao fim de seu discurso, Ivan Pinheiro convidou Dinarco Reis Filho, presidente da Fundação que leva o nome de seu pai, a entregar a Medalha Dinarco Reis a Carlinhos Marighella, filho de Carlos Marighella, que fez um emocionante pronunciamento, valorizando seu pai como o militante corajoso e abnegado, solidário e cordial, que conjugou várias formas de luta, sempre conseqüente com suas opiniões.

Como se tratava de um ato amplo e unitário de homenagem a um dos grandes heróis das lutas do povo brasileiro, todos esses oradores respeitaram as duas organizações pelas quais passou Marighella (PCB e ALN) e principalmente a pluralidade das entidades e das inúmeras personalidades presentes, unidas no ato pela questão democrática e pela necessidade de se apurar a verdade dos crimes da ditadura. Além dos deputados estaduais citados, prestigiaram o evento os deputados federais Alexandro Molon e Chico Alencar.

Todos ressaltaram o ser humano cordial e solidário, que colocou sua vida inteira a serviço da luta por uma sociedade justa e solidária, sem opressores.

Este ambiente de emoção e unidade não foi comprometido por destoantes manifestações de auto-afirmação revolucionária de natureza messiânica. As lutas contra a ditadura do capital e pelo socialismo continuam vigentes e cada vez mais necessárias. O PCB homenageia Marighella como um dos grandes lutadores brasileiros, pensando no presente e no futuro das lutas revolucionárias. Se ainda estivesse entre nós, estaria à frente dessas lutas e não olhando para o passado.

Duas presenças emocionaram os participantes: Zilda Xavier Pereira, que atuou com Marighella no PCB e na ALN, mãe de dois jovens assassinados pela ditadura (Alex e Iuri), e Eliseu, um velho comunista ligado ao PCB (ex-vereador pelo Partido no RJ nos anos 40 e dirigente sindical), que resolveu comemorar no ato público o seu aniversário de 100 anos de idade, cumprido naquele dia.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

As próprias pedras gritarão


Este é o depoimento de um preso político, frei Tito de Alencar Lima, 24 anos. Dominicano. (redigido por ele mesmo na prisão). Este depoimento escrito em fevereiro de 1970 saiu clandestinamente da prisão e foi publicado, entre outros, pelas revistas Look e Europeo.Fui levado do presídio Tiradentes para a "Operação Bandeirantes", OB (Polícia do Exército), no dia 17 de fevereiro de 1970, 3ª feira, às 14 horas. O capitão Maurício veio buscar-me em companhia de dois policiais e disse: "Você agora vai conhecer a sucursal do inferno". Algemaram minhas mãos, jogaram me no porta-malas da perua. No caminho as torturas tiveram início: cutiladas na cabeça e no pescoço, apontavam-me seus revólveres.

Preso desde novembro de 1969, eu já havia sido torturado no DOPS. Em dezembro, tive minha prisão preventiva decretada pela 2ª auditoria de guerra da 2ª região militar. Fiquei sob responsabilidade do juiz auditor dr Nelson Guimarães. Soube posteriormente que este juiz autorizara minha ida para a OB sob “garantias de integridade física”.

Ao chegar à OB fui conduzido à sala de interrogatórios. A equipe do capitão Maurício passou a acarear-me com duas pessoas. O assunto era o Congresso da UNE em Ibiúna, em outubro de 1968. Queriam que eu esclarecesse fatos ocorridos naquela época. Apesar de declarar nada saber, insistiam para que eu “confessasse”. Pouco depois levaram me para o “pau-de-arara”. Dependurado nu, com mãos e pés amarrados, recebi choques elétricos, de pilha seca, nos tendões dos pés e na cabeça. Eram seis os torturadores, comandados pelo capitão Maurício. Davam-me "telefones" (tapas nos ouvidos) e berravam impropérios. Isto durou cerca de uma hora. Descansei quinze minutos ao ser retirado do "pau-de-arara". O interrogatório reiniciou. As mesmas perguntas, sob cutiladas e ameaças. Quanto mais eu negava mais fortes as pancadas. A tortura, alternada de perguntas, prosseguiu até às 20 horas. Ao sair da sala, tinha o corpo marcado de hematomas, o rosto inchado, a cabeça pe sada e dolorida. Um soldado, carregou-me até a cela 3, onde fiquei sozinho. Era uma cela de 3 x 2,5 m, cheia de pulgas e baratas. Terrível mau cheiro, sem colchão e cobertor. Dormi de barriga vazia sobre o cimento frio e sujo.

Na quarta-feira fui acordado às 8 h. Subi para a sala de interrogatórios onde a equipe do capitão Homero esperava-me. Repetiram as mesmas perguntas do dia anterior. A cada resposta negativa, eu recebia cutiladas na cabeça, nos braços e no peito. Nesse ritmo prosseguiram até o início da noite, quando serviram a primeira refeição naquelas 48 horas: arroz, feijão e um pedaço de carne. Um preso, na cela ao lado da minha, ofereceu-me copo, água e cobertor. Fui dormir com a advertência do capitão Homero de que no dia seguinte enfrentaria a “equipe da pesada”.

Na quinta-feira três policiais acordaram-me à mesma hora do dia anterior. De estômago vazio, fui para a sala de interrogatórios. Um capitão cercado por sua equipe, voltou às mesmas perguntas. "Vai ter que falar senão só sai morto daqui", gritou. Logo depois vi que isto não era apenas uma ameaça, era quase uma certeza. Sentaram-me na "cadeira do dragão" (com chapas metálicas e fios), descarregaram choques nas mãos, nos pés, nos ouvidos e na cabeça. Dois fios foram amarrados em minhas mãos e um na orelha esquerda. A cada descarga, eu estremecia todo, como se o organismo fosse se decompor. Da sessão de choques passaram-me ao "pau-de-arara". Mais choques, pauladas no peito e nas pernas a cada vez que elas se curvavam para aliviar a dor. Uma hora depois, com o corpo todo ferido e sangrando, desmaiei. Fui desamarrado e reanimado. Conduziram-me a outra sala dizendo que passariam a carga elétrica para 230 volts a fim de que eu falasse "antes de morrer". Não cheg aram a fazê-lo. Voltaram às perguntas, batiam em minhas mãos com palmatória. As mãos ficaram roxas e inchadas, a ponto de não ser possível fechá-las. Novas pauladas. Era impossível saber qual parte do corpo doía mais; tudo parecia massacrado. Mesmo que quisesse, não poderia responder às perguntas: o raciocínio não se ordenava mais, restava apenas o desejo de perder novamente os sentidos. Isto durou até às 10 h quando chegou o capitão Albernaz.

"Nosso assunto agora é especial", disse o capitão Albernaz, ligou os fios em meus membros. "Quando venho para a OB - disse - deixo o coração em casa. Tenho verdadeiro pavor a padre e para matar terrorista nada me impede... Guerra é guerra, ou se mata ou se morre. Você deve conhecer fulano e sicrano (citou os nomes de dois presos políticos que foram barbaramente torturados por ele), darei a você o mesmo tratamento que dei a eles: choques o dia todo. Todo "não" que você disser, maior a descarga elétrica que vai receber". Eram três militares na sala. Um deles gritou: "Quero nomes e aparelhos (endereços de pessoas)". Quando respondi: "não sei" recebi uma descarga elétrica tão forte, diretamente ligada à tomada, que houve um descontrole em minhas funções fisiológicas. O capitão Albernaz queria que eu dissesse onde estava o Frei Ratton. Como não soubesse, levei choques durante quarenta minutos.

Queria os nomes de outros padres de São Paulo, Rio e Belo Horizonte "metidos na subversão". Partiu para a ofensa moral: "Quais os padres que têm amantes? Por que a Igreja não expulsou vocês? Quem são os outros padres terroristas?". Declarou que o interrogatório dos dominicanos feito pele DEOPS tinha sido "a toque de caixa" e que todos os religiosos presos iriam à OB prestar novos depoimentos. Receberiam também o mesmo "tratamento". Disse que a "Igreja é corrupta, pratica agiotagem, o Vaticano é dono das maiores empresas do mundo". Diante de minhas negativas, aplicavam-me choques, davam-me socos, pontapés e pauladas nas costas. À certa altura, o capitão Albernaz mandou que eu abrisse a boca "para receber a hóstia sagrada". Introduziu um fio elétrico. Fiquei com a boca toda inchada, sem poder falar direito. Gritaram difamações contra a Igreja, berraram que os padres são homossexuais porque não se casam. Às 14 horas encerraram a sessão. Carregado, voltei à cela onde fiquei estirado no chão.

Às 18 horas serviram jantar, mas não consegui comer. Minha boca era uma ferida só. Pouco depois levaram-me para uma "explicação". Encontrei a mesma equipe do capitão Albernaz. Voltaram às mesmas perguntas. Repetiram as difamações. Disse que, em vista de minha resistência à tortura, concluíram que eu era um guerrilheiro e devia estar escondendo minha participação em assaltos a bancos. O "interrogatório" reiniciou para que eu confessasse os assaltos: choques, pontapés nos órgãos genitais e no estomago palmatórias, pontas de cigarro no meu corpo. Durante cinco horas apanhei como um cachorro. No fim, fizeram-me passar pelo "corredor polonês". Avisaram que aquilo era a estréia do que iria ocorrer com os outros dominicanos. Quiseram me deixar dependurado toda a noite no "pau-de-arara". Mas o capitão Albernaz objetou: "não é preciso, vamos ficar com ele aqui mais dias. Se não falar, será quebrado por dentro, pois sabemos fazer as coisas sem deixar marcas visíveis". "Se sobreviver, jamais esquecerá o preço de sua valentia".

Na cela eu não conseguia dormir. A dor crescia a cada momento. Sentia a cabeça dez vezes maior do que o corpo. Angustiava-me a possibilidade de os outros padres sofrerem o mesmo. Era preciso pôr um fim àquilo. Sentia que não iria aguentar mais o sofrimento prolongado. Só havia uma solução: matar-me.

Na cela cheia de lixo, encontrei uma lata vazia. Comecei a amolar sua ponta no cimento. O preso ao lado pressentiu minha decisão e pediu que eu me acalmasse. Havia sofrido mais do que eu (teve os testículos esmagados) e não chegara ao desespero. Mas no meu caso, tratava-se de impedir que outros viessem a ser torturados e de denunciar à opinião pública e à Igreja o que se passa nos cárceres brasileiros. Só com o sacrifício de minha vida isto seria possível, pensei. Como havia um Novo Testamento na cela, li a Paixão segundo São Mateus. O Pai havia exigido o sacrifício do Filho como prova de amor aos homens. Desmaiei envolto em dor e febre.

Na sexta-feira fui acordado por um policial. Havia ao meu lado um novo preso: um rapaz português que chorava pelas torturas sofridas durante a madrugada. O policial advertiu-me: "o senhor tem hoje e amanhã para decidir falar. Senão a turma da pesada repete o mesmo pau. Já perderam a paciência e estão dispostos a matá-lo aos pouquinhos". Voltei aos meus pensamentos da noite anterior. Nos pulsos, eu havia marcado o lugar dos cortes. Continuei amolando a lata. Ao meio-dia tiraram-me para fazer a barba. Disseram que eu iria para a penitenciária. Raspei mal a barba, voltei à cela. Passou um soldado. Pedi que me emprestasse a "gillete" para terminar a barba. O português dormia. Tomei a gillete. Enfiei-a com força na dobra interna do cotovelo, no braço esquerdo. O corte fundo atingiu a artéria. O jato de sangue manchou o chão da cela. Aproximei-me da privada, apertei o braço para que o sangue jorrasse mais depressa. Mais tarde recobrei os sentidos num leito do pron to-socorro do Hospital das Clínicas. No mesmo dia transferiram-me para um leito do Hospital Militar. O Exército temia a repercussão, não avisaram a ninguém do que ocorrera comigo. No corredor do Hospital Militar, o capitão Maurício dizia desesperado aos médicos: "Doutor, ele não pode morrer de jeito nenhum. Temos que fazer tudo, senão estamos perdidos". No meu quarto a OB deixou seis soldados de guarda.

No sábado teve início a tortura psicológica. Diziam: "A situação agora vai piorar para você, que é um padre suicida e terrorista. A Igreja vai expulsá-lo". Não deixavam que eu repousasse. Falavam o tempo todo, jogavam, contavam-me estranhas histórias. Percebi logo que, a fim de fugirem à responsabilidade de meu ato e o justificarem, queriam que eu enlouquecesse.

Na segunda noite recebi a visita do juiz auditor acompanhado de um padre do Convento e um bispo auxiliar de São Paulo. Haviam sido avisados pelos presos políticos do presídio Tiradentes. Um médico do hospital examinou-me à frente deles mostrando os hematomas e cicatrizes, os pontos recebidos no hospital das Clínicas e as marcas de tortura. O juiz declarou que aquilo era "uma estupidez" e que iria apurar responsabilidades. Pedi a ele garantias de vida e que eu não voltaria à OB, o que prometeu.

De fato fui bem tratado pelos militares do Hospital Militar, exceto os da OB que montavam guarda em meu quarto. As irmãs vicentinas deram-me toda a assistência necessária Mas não se cumpriu a promessa do juiz. Na sexta-feira, dia 27, fui levado de manhã para a OB. Fiquei numa cela até o fim da tarde sem comer. Sentia-me tonto e fraco, pois havia perdido muito sangue e os ferimentos começavam a cicatrizar-se. À noite entregaram-me de volta ao Presídio Tiradentes.

É preciso dizer que o que ocorreu comigo não é exceção, é regra. Raros os presos políticos brasileiros que não sofreram torturas. Muitos, como Schael Schneiber e Virgílio Gomes da Silva, morreram na sala de torturas. Outros ficaram surdos, estéreis ou com outros defeitos físicos. A esperança desses presos coloca-se na Igreja, única instituição brasileira fora do controle estatal-militar. Sua missão é: defender e promover a dignidade humana. Onde houver um homem sofrendo, é o Mestre que sofre. É hora de nossos bispos dizerem um BASTA às torturas e injustiças promovidas pelo regime, antes que seja tarde.

A Igreja não pode omitir-se. As provas das torturas trazemos no corpo. Se a Igreja não se manifestar contra essa situação, quem o fará? Ou seria necessário que eu morresse para que alguma atitude fosse tomada? Num momento como este o silêncio é omissão. Se falar é um risco, é muito mais um testemunho. A Igreja existe como sinal e sacramento da justiça de Deus no mundo

"Não queremos, irmãos, que ignoreis a tribulação que nos sobreveio. Fomos maltratados desmedidamente, além das nossas forças, a ponto de termos perdido a esperança de sairmos com vida. Sentíamos dentro de nós mesmos a sentença de morte: deu-se isso para que saibamos pôr a nossa confiança, não em nós, mas em Deus, que ressuscita os mortos" (2Cor, 8-9).

Faço esta denúncia e este apelo a fim de que se evite amanhã a triste notícia de mais um morto pelas torturas.

Frei Tito de Alencar Lima, OP

Fevereiro de 1970

[Fonte: http://www.torturanuncamais-sp.org/site/index.php/historia-e-memoria/270-relato-da-tortura-de-frei-tito)

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Como se organizar no PCB?

Como se organizar no PCB?

O Partido Comunista Brasileiro é o partido de maior longevidade em nosso país. Foi fundado em 25 de março de 1922, em Niterói, Estado do Rio de Janeiro, por um grupo de trabalhadores animados com a vitória dos operários e camponeses na Revolução Bolchevique de 1917, na Rússia.

O PCB nada tem a ver com os partidos institucionais mantidos pela legislação burguesa, os partidos da ordem, cujos maiores representantes hoje são o PT, o PSDB, o PMDB, o DEM, etc, cujas divergências entre eles resumem-se a diferentes formas de gerenciar e fazer aprofundar o capitalismo em nosso país. Nosso partido, apesar de participar da vida política institucional, pois enxerga como fundamental aproveitar o espaço conquistado pelas lutas democráticas no país (liberdade de organização, participação nas eleições, uso do tempo de televisão, fundo partidário, etc), não vê este espaço como um fim em si mesmo (como hoje fazem partidos que outrora foram de esquerda, como o PC do B), mas um meio para difundir as ideias e o programa comunista e avançar na organização da classe trabalhadora visando construir a revolução socialista no país.

Para fazer parte do PCB é preciso estar organizado numa base ou célula partidária. A base ou célula são o centro de gravidade do partido, a sua razão de ser, as unidades básicas de que toda a organização depende. São uma espécie de modelo reduzido do próprio partido, possuindo – dentro de seu espaço de atuação – as diversas funções do todo partidário. Elas são o partido organizado em espaços comuns de atuação e luta (a fábrica, a empresa, o bairro, a escola, os movimentos sociais). As bases têm a finalidade de ligar o partido às massas, num sentido de mão dupla. De um lado, devem participar da vida das massas, procurando levá-las a conhecer, assimilar e pôr em prática a linha política do partido. De outro lado, devem recolher delas suas experiências, reivindicações e tendências, para capacitar o partido a elaborar propostas políticas justas para as necessidades do seu tempo.



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As organizações de base devem ser organismos dinâmicos e criativos. Toda base deve ter um plano de ação, com objetivos e prazos a serem atingidos e a definição de responsabilidades. Nelas, os militantes discutem a política do partido, analisam a realidade da área de sua atuação, elaboram os planos de ação, opinam sobre os documentos e resoluções partidárias, exercendo o direito à critica e à autocrítica. E é assim que funciona o princípio maior da organização comunista: o centralismo democrático. Nos processos congressuais e nas conferências para debater a linha política, a tática e a estratégia de ação do partido, os militantes discutem exaustivamente as propostas até chegarem a um consenso ou a uma posição majoritária. Construída esta posição, adotada coletivamente como resultado de um amplo processo democrático de participação nas decisões, o conjunto do partido deve se empenhar para pôr em prática aquilo que foi decidido, de forma unitária e coesa. Todas as decisões, mesmo relativas a questões cotidianas, são adotadas desta forma: coletivamente. Mas somente a prática política disciplinada e unitária é capaz de fazer do partido um grupo homogêneo, pronto para assumir as tarefas necessárias ao desenvolvimento dos grandes embates políticos e sociais e da luta maior em prol da revolução socialista.

O que defende hoje o PCB?
Conforme aprovado pelo XIV Congresso Nacional do PCB, realizado em outubro de 2009, objetivo central da ação dos comunistas é a superação do modo de produção capitalista e a constituição de uma sociedade socialista. A revolução socialista é um processo histórico e complexo que não pode ser entendido como linear. É composto de elementos diversos e sujeito às condições objetivas e subjetivas de cada formação social, à luz da conjuntura nacional e internacional e de sua evolução. O triunfo do socialismo não é um fato que acontecerá de forma natural ou inexorável, como afirmam algumas leituras mecanicistas da obra de Marx, mas sim uma possibilidade histórica que deve ser construída.

Na luta para fazer afirmar a hegemonia política do proletariado, entendemos ser necessária a construção do Bloco Revolucionário do Proletariado, reunião das forças políticas e sociais que almejam dirigir os trabalhadores brasileiros para a derrubada do capitalismo por meio da revolução socialista. Nossa estratégia, portanto, é a revolução socialista. São as massas que fazem a revolução, no sentido mais amplo da superação do capitalismo pelo socialismo, e não propriamente o partido. Mas a revolução não acontecerá sem um partido revolucionário a liderá-la, o que pode se dar em conjunto com outras forças e organizações políticas revolucionárias que configurem o Bloco Revolucionário.

A organização dos trabalhadores inclui formas de organização popular direta, nos bairros, no campo e em grandes movimentos urbanos de massa e a luta pelo aprimoramento da organização sindical, com a construção de grandes sindicatos por ramo de produção, a proposição de greves gerais com a participação de todos os trabalhadores, do proletariado precarizado, dos partidos de esquerda e de outras organizações sociais, e a utilização de vias não institucionais para a luta revolucionária. Além disso, a luta pela hegemonia das ideias socialistas e comunistas compreende a utilização de todas as formas disponíveis e todos os espaços políticos aos quais tenhamos acesso para difundir e desenvolver as ideias políticas socialistas e comunistas e para promover a denúncia contumaz e radical do capitalismo.

A construção de uma alternativa de poder que se apresente como uma contraposição ao poder burguês somente será efetiva se conseguir mobilizar as classes exploradas, com um programa capaz de produzir uma ruptura na ordem capitalista. Esta contraposição se materializa no Poder Popular, que possui um caráter estratégico – ao se transformar numa espécie de poder paralelo ao Estado burguês e no futuro núcleo de poder proletário rumo ao socialismo. Possui também um caráter tático, ao dar suporte para as lutas unificadoras do movimento operário e popular.

A tática do PCB se pauta pela construção de uma Plataforma Comunista, composta de um programa e de uma proposta de organização popular. O principal ponto deste programa é a formação de uma Frente Política Anticapitalista e Anti-imperialista, que tenha caráter permanente, não se tratando de uma frente eleitoral. Esta Frente deve ser composta por partidos, organizações, movimentos e personalidades que se oponham à política dos governos capitalistas e lutem pelas transformações necessárias para fazer valer os interesses dos trabalhadores brasileiros. A Frente deve ter o papel de aglutinar o movimento operário e popular em torno de bandeiras gerais e específicas, sendo também um polo de ação institucional, conformando, assim, uma alternativa às propostas liberais, socialdemocratas, nacionaldesenvolvimentistas, dentre outras que correspondam aos interesses e às representações da burguesia.


A teoria marxista
Baseamo-nos na teoria social elaborada, inicialmente, por Karl Marx e Friedrich Engels, no século XIX (época de grandes lutas operárias contra a exploração promovida pelo capitalismo, que vivia seu processo de consolidação no mundo) e continuada, no século XX, por Lênin, Rosa Luxemburgo, Gramsci, Lukács e outros grandes militantes das lutas anticapitalistas de seu tempo. Estes autores revolucionários deram forma a uma nova concepção de mundo, concebida através da análise crítica e consciente da realidade existente e da intervenção ativa na história, construindo assim o instrumental teórico necessário ao enfrentamento à concepção de mundo dominante, que está a serviço dos interesses e necessidades da burguesia e da expansão contínua do capitalismo.

Segundo Marx, a teoria somente se transforma em poder material quando é apoderada pelas massas, isto é, uma ideia só se realiza plenamente se é abraçada pelo movimento social concreto e se configura em ação prática transformadora. O papel básico do partido comunista é contribuir para a elevação da consciência de classe dos trabalhadores, agindo na organização das lutas e na propaganda socialista em contraponto ao modelo de sociedade capitalista. A disputa ideológica que o Partido Comunista promove visa, entre outros, superar os marcos dos interesses puramente imediatos, economicistas, corporativos, para o nível da visão global da realidade, forjando, desta feita, a visão de mundo transformadora, capaz de hegemonizar um projeto político de construção da sociedade socialista.

Lênin já dizia que a consciência socialista não brota espontaneamente das lutas populares e nem da indignação particular de uma parte do proletariado. Por isso destacava a importância do partido revolucionário e dos militantes comunistas para dirigir e orientar as massas revoltadas com as desigualdades e injustiças provocadas pelo sistema capitalista em uma mobilização consciente em prol do socialismo, como única alternativa capaz de solucionar os problemas vividos pela classe trabalhadora.

Não se pode prever de antemão quando eclodirá em algum lugar a verdadeira revolução proletária e qual será o motivo principal que despertará e lançará à luta as grandes massas, hoje ainda presas na corrente da alienação. Mas não podemos ficar esperando este momento, como se a revolução, além de necessária, fosse inevitável. O partido deve estar sempre preparado, no presente, de olho no futuro. Os requisitos fundamentais para o êxito desta empreitada são uma linha política correta, uma direção unida, além de organizações de base e militantes capazes e enraizados nas massas.

Uma história de lutas
A trajetória do Partido Comunista Brasileiro está indelevelmente marcada na própria história do Brasil. Nossa organização sempre se destacou por atrair para suas fileiras os mais importantes dirigentes das lutas dos trabalhadores e representantes da intelectualidade e da cultura brasileira.

Quando se tornou um verdadeiro partido de dimensões nacionais, no período entre o imediato pós-guerra (1945) até o golpe que implantou a ditadura empresarial-militar em 1964, o PCB no partido que agregou praticamente toda a esquerda brasileira, unindo o mundo do trabalho com o mundo cultural. Intelectuais do porte de Astrojildo Pereira, Octávio Brandão, Caio Prado Jr., Graciliano Ramos, Nélson Werneck Sodré, Oduvaldo Viana Filho (Vianinha), Paulo Pontes, dentre outros, participavam de um extenso aparato político-cultural (jornais, revistas, livros, associações culturais, etc), que, associado às organizações mais ligadas às lutas diretas dos trabalhadores e da juventude (sindicatos, ligas camponesas, imprensa operária, Comando Geral dos Trabalhadores, União Nacional dos Estudantes e outras), compunham uma grande rede de instituições que tinham nas camadas proletárias o sujeito real da intervenção social. O PCB exercia, naquele tempo, grande influência junto às organizações populares que lutavam contra o poder do latifúndio, a grande empresa capitalista e a ação do imperialismo em nosso país. O golpe de 1964 abateu-se de forma violenta contra os comunistas e demais forças democráticas e progressistas, interrompendo a ascensão do movimento de massas no Brasil por longos vinte anos.

Se a história do PCB foi marcada por uma sistemática repressão, que o compeliu à clandestinidade por mais da metade de sua existência e que entregou ao povo brasileiro boa parte de seus maiores heróis do século XX, nem por isto o PCB foi um partido marginal. Ao contrário: da década de 1920 aos dias atuais, os comunistas, com seus acertos e erros, mas especialmente com sua profunda ligação aos interesses históricos das massas trabalhadoras brasileiras, participaram ativamente da dinâmica social, política e cultural do país.

Desde 1992, quando um grupo de liquidacionistas, comandado por Roberto Freire (hoje no PPS, legenda auxiliar do PSDB e dos governos burgueses de direita), tentou acabar com o PCB, na esteira da crise mundial vivida pelo socialismo (queda do muro de Berlim e derrocada da União Soviética), vivemos um processo de reconstrução revolucionária de nosso Partido. Nos últimos anos temos intensificado o trabalho de estruturação interna do Partido e de sua inserção nos movimentos de massa. Através, principalmente, do movimento sindical e estudantil e da participação nas entidades representativas, o Partido afirma a centralidade do trabalho e a necessidade da revolução social de matiz socialista. É através deste trabalho, também, que o partido vem recrutando e formando novos militantes e formulando sua intervenção junto às massas.


quarta-feira, 25 de maio de 2011

O cotidiano da luta na Colômbia

As FARC em ação


Dois jornalistas viveram uma semana nas planícies do leste da Colômbia com a Coluna "Jorge Briceño" da guerrilha e, mostram a sobrevivência nômade obrigada pelas Forças Armadas, mas também como a forma de prosseguir a formação, recebendo armas, combatendo e até mesmo fazendo atividades em favor do povo e, em memória de seu Comandante.
Tiros de canhão de um metralhadora russa. Fuzis de assalto se unem ao combate. Guerrilheiros das FARC e soldados colombianos trocam tiros de um lado para o outro em um terreno de apenas 100 metros de mata. Granadas fazem eco ao explodirem.
É difícil com toda essa lama, disse um guerrilheiro apelidado de Adrián enquanto abraça sua metralhadora M-60. “Isso é para retardar o avanço deles (o exército). Dentro de dois ou três dias assumem novas posições e voltam para lutar. O campo de batalha nesse dia era uma pequena colina de El Porvenir, uma vila perto da cidade de La Julia. O combate durou cerca de uma hora. Foi mais um de uma série de batalhas anônimas que raramente chegam às manchetes da imprensa.
No campo, nenhum dos 54 jovens combatentes da Companhia Marquetalia - parte do Bloco Oriental - falam em rendição.
Vem a morte do Mono (Jojoy) e todo o mundo morreu. A morte vem ao camarada Manuel (Marulanda), e todo o mundo morreu. Isso é o que eu penso, mas não é ", diz Jagwin, comandante do recém formada “Companhia Marquetalia. “Sente-se muito, acrescenta, porque o Mono era praticamente o nosso pai. É como acontece em casa quando o pai morre, mas tem que haver um irmão que trabalhe no desenvolvimento da pequena propriedade.
Como Jagwin, Willinton 40, o segundo no comando da Companhia, estava próximo ao acampamento de Briceño na noite que foi bombardeado. De igual maneira negou que o ataque fora o anúncio da morte das FARC:
Para as Forças Armadas e para o resto do mundo, as FARC estão no final do final, após a mortdo camarada Jorge (Mono Jojoy). Mas para nós não é assim. Nós somos uma organização com hierarquia e quando morre um Comandante ou um guerrilheiro, outro o substitui.
A conversa para abruptamente. O som das hélices de um helicóptero de artilharia Blackhawk ecoa
em cima. Enquanto persegue a coluna móvel da guerrilha descarrega suas metralhadoras calibre 50. A “Companhia Marquetalia já está em retirada tática, combatentes de outras duas unidades também se retiram da área de combate.
No momento em que o helicóptero Blackhawk deixa a floresta, batizado pelos rebeldes de Arpía, volta-se a ter visão. “Fiquem quietos. Vem para cá, são foguetes, avisa Faiber, um dos sob-comandantes da Companhia. Um míssil atinge um alvo invisível e uma chuva de balas castiga a terra. “Me sinto normal. Chega a hora na qual a gente perde o medo, diz Faiber, ordenando seus companheiros a continuarem a marcha.
Nessa noite, o acampamento foi erguido sobre uma plantação. Aviões das forças militares patrulhavam constantemente. Comandantes rebeldes ordenaram um apagão total e confiscaram as lanternas dos combatentes. Todas as conversas eram sussurros, só.
Enquanto escutavam o barulho sobre as suas cabeças falavam sobre “la exploradora referindo-se
a um avião de reconhecimento, a “la Marrama um avião de artilharia e equipado com sofisticados sensores noturnos. Suas vidas dependem da observação destes aviões a tempo de evitar serem detectados.
Embaixo de um telhado de zinco de uma cabana de camponeses abandonada, Jagwin explica como sobreviveu a um bombardeio.
O último recurso que nós tínhamos, recorda, era a trincheira. Quando veio um bombardeio nos enterramos nela. E no momento do desembarque (de tropas) íamos saindo. "
Willington, 40, também sentiu a fúria das missões aéreas. Ele ofereceu poucos detalhes, mas confessou que ele e outros sobreviventes tiveram de abandonar os mortos e feridos - um tabu para qualquer força militar. “É difícil ter que abandonar uma zona de combate ou bombardeio deixando companheiros feridos ou mortos. São companheiros e haviam compartilhado uma vida de guerrilha com eles. Eles são os que haviam posto o peito às balas na linha de fogo.
Por essa razão, nessa noite como todas as noites, os comandantes instruíram os guerrilheiros sobre as rotas de evacuação em caso de bombardeio. Eles ordenaram usar canos pouco profundos e pequenas trincheiras escavadas perto de suas entradas para se protegerem contra uma possível chuva de estilhaços. E, finalmente, antes de deitar, elaboraram os planos de combate em caso de terem que enfrentar um ataque noturno.
Os dois dias seguintes foram uma série de marchas cansativas. Enquanto a Companhia avançava, os membros de pelo menos outras duas colunas e outras três Frentes das FARC apareceram para guiá-los ou simplesmente saudá-los. A rede de comunicações da guerrilha estava funcionando eficazmente apesar das versões governamentais sobre as FARC que haviam perdido o "comando e o controle - ou seja, a capacidade das diferentes unidades comunicarem-se e coordenar entre si.
A época de chuvas havia chegado atrapalhando a meta da “companhia Marquetalia que avançava menos de dois quilômetros por hora.
No caminho, ninguém tinha muito animo para falar.
Estavam cansados, com suas mochilas de 30 quilos, com rifles e morteiros. Suas botas de borracha estavam cheias, metade com água morna do rio e a outra metade com o suor. Enormes raízes formavam passos naturais para baixar as bordas lamacentas. Borboletas de um azul elétrico voavam pelo mato. Os macacos balançavam-se entre as copas das árvores, atirando galhos ao chão de vez em quando.
Com poucas exceções as idades dos guerrilheiros na Companhia variava entre 20 e 30 anos.
Eram jovens, em bom estado físico e de famílias pobres - um perfil comparável aos soldados rasos de qualquer unidade de infantaria, que seja do exército colombiano ou tropas estadunidenses no Iraque ou no Afeganistão.
Hospital ambulante
O destino para a “Companhia Marquetalia após dois dias de marcha foi uma cabana de madeira escondida na selva. Na parede, se via um cartaz escrito à mão com as palavras “Brigada cívico- militar Jorge Briceño Suárez.
Guerrilheiros de uma unidade irmã, a “Companhia Ismael Ayala, haviam instalado uma clínica para oferecer tratamento odontológico e pequenas cirurgias aos camponeses e suas famílias. Ponchos camuflados serviam as vezes de paredes ao redor da sala de odontologia. Outro poncho marcava a entrada a outra sala onde os médicos das FARC estavam prontos para operar utilizando anestesia local.
Uma mãe havia levado seus três filhos. Sua tentativa anterior de procurar tratamento com um dentista civil em La Julia - a mais ou menos três horas de distância - acabou por ser uma viagem perdida. "Fui com eles, mas a enfermeira que retirou os dentes não estava nesse dia, então tive que trazê-los de volta para casa."
Ela, como outros que esperavam na clínica das FARC, disse que a atenção na vila é gratuita mas de baixa qualidade. Mas, se algum paciente não está registrado no plano de saúde, um dentista particular lhe cobraria 25.000 pesos para arrancar um dente. Embora o custo mais alto seja para pagar a viagem de ida e volta à cidade.
Enquanto, as clínicas de guerrilha como esta podem ser consideradas uma solução momentânea para os camponeses, não representam uma solução de longo prazo para as condições precárias de saúde destas comunidades isoladas.